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domingo, 2 de agosto de 2020

A Cobrança do Jogo de Búzios


Muitas pessoas se questionam por que cobramos para jogar búzios, e não entendem quando um sacerdote se nega a abrir o jogo sem o valor estipulado para o mesmo, sobe pena de ser punido por Ifá. 

Um dos itãns (histórias) mais contados através da tradição, nossos antepassados, sobre o Oráculo Sagrado de Ifá, conta que, um determinado moço, vivia nas ruas com algumas "conchas" nas mãos e, com elas fazia uma espécie de adivinhação da vida de todos que por ali passavam, em troca de algum pagamento ou oferenda, esse rapaz era Exú/Bará.

Interessada em aprender aquele segredo Oxum resolveu procurar Bará e pedir-lhe que a ensinasse os mistérios contidos naquelas "conchas", mas Bará recusou-se e mandou Oxum embora.

Oxum muito astuta bolou um plano para enfeitiçar Bará e, assim arrancar dele o que ela queria, os segredos de Ifá. Com um pó mágico Oxum foi a procura de Bará. Chegando em seu reino, Oxum brinca com ele, desafiando-o a descobrir o que ela tinha entre os dedos. Bará então inclinou-se para ver o que havia nas mãos de Oxum e, foi quando ela soprou o pó mágico em seus olhos, cegando-o momentaneamente. Com medo de perder para sempre suas "conchas sagradas" e ser punido por Ifá, Bará se viu obrigado a passar os segredos do Jogo de Búzios para Oxum.

Ifá não é propriamente uma divindade (Orixá), é o porta-voz, é a representação da adivinhação, da profecia de Orunmilá. Bará por sua vez, é o Orixá mensageiro, que faz a comunicação entre Orunmilá, Ifá e os demais Orixás, sem este "elo" de ligação, não temos contato junto aos demais Orixás. 

Sendo assim, Oxum foi conversar com Orunmilá e este reconhece a astúcia de Oxum e acrescentou mais, que a partir daquele momento, todos os que desejassem se beneficiar dos segredos de Ifá deveriam pagar um tributo a ela, a Bará e a ele mesmo, Orunmilá. E assim nasceu o pagamento pelo Jogo de Búzios, Oxum passou a ser a verdadeira senhora desse processo juntamente com Bará e, junto de Orunmilá, sendo os únicos detentores dos segredos de Ifá. 

Quando um sacerdote consulta Ifá de graça, Oxum lhe tira a visão e Bará lhe corta a comunicação, vetando acesso a Orunmilá. Portanto, com o dinheiro ali arrecadado, esse sacerdote deve retirar uma parte para pagar tributos ás divindades se quiser continuar enxergando e ouvindo o que falam os búzios em suas quedas.

Assim, quando se dirigir a uma casa de santo para um jogo de búzios, lembre-se de que, ali está um segredo muito grande e é obrigação do sacerdote cobrar para fazer uso do mesmo, sob pena de perder a visão do jogo.

A cobrança do jogo, não é comércio como pensam muitos, mas sim, um preceito religioso e deve ser obedecido à risca, como tudo que se pratica dentro do culto.

Um bom axé a todos!

Pai Daniel de Oxum




*Imagem meramente ilustrativa, retirada da internet (Google).

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Mediunidade - Desenvolvimento Mediúnico


Vamos observar alguns fatores de nossa atualidade junto às doutrinas e chegadas de entidades, hoje mais especificamente, falando do povo de Exú/Pombo Gira (Umbanda/Kimbanda).

Vejo muitos iniciantes com entidades nascendo já falando, dando consultas, bebendo, fumando, recebendo suas entidades em ambientes domiciliares, comerciais, dançando e cantando... Até que ponto isso está correto? Até onde é uma entidade de fato que está se manifestando? Até que ponto o dirigente espiritual da casa é responsável?

Bom, inicialmente, precisamos entender que existe um abismo muito grande, porém paralelo, entre o médium, o espírito e sua consciência. Toda entidade ao nascer, ela necessita de acompanhamento, até mesmo para se firmar no chão. Ao chegar, a entidade, a consciência e o médium entram em um processo que chamamos de desenvolvimento, onde ambos estarão na transição do conhecimento e do amadurecimento, para assim terem condições futura de trabalharem dentro da falange na qual o espírito pertence. Trabalharem??? Simm, no plural, pois um depende do outro para atingir o equilíbrio pleno, matéria, consciência e espírito caminham juntas.

Após esse período de desenvolvimento, que pode variar de 3 há 7 anos, onde a entidade terá dominado a matéria e a consciência, ela passará por testes, onde dirá se ela estará apta de fato. Estes testes não necessariamente são provas que agridem a matéria ou levam a paranormalidade. Um espírito pode provar sua evolução de muitas outras formas. E então assim, a entidade ganhará a sua liberdade para falar e fazer seu trabalho, sua magia, seja na caridade ou até mesmo na maldade. E logo em seguida, conforme sua evolução e assentamentos necessários, ganhar seu governo junto a casa de seu médium.

Mas é nesta hora onde o papel do dirigente espiritual entra em ação. Cabe a ele, somente a ele, passar toda essa doutrina e cuidado junto da entidade e do filho em questão, durante este longo período transitório. Caso contrário, a pessoa ficará perdida em meio a uma corrente de energias desconhecidas, oscilando entre matéria, consciência e entidade, dando espaço muitas vezes, para espíritos obsessores atuarem, trazendo prejuízos irreparáveis para a vida do médium desenvolvente. Onde acabará por muitas vezes se manifestando em ambientes e horas não propícias, falando coisas de seu subconsciente, achando que é vidência, buscando pontos fracos para avaliar e julgar situações em meio a ocasiões adversas. O médium acabará em plena desordem, ao ponto de onde um simples arrepio ou conflito pessoal ser motivo para manifestação da suposta entidade. Desencadeando uma série de comportamentos que não condizem com a doutrina da própria espiritualidade. O que por fim, acaba gerando total descrédito junto das pessoas mais próximas, servindo de chacota nas redes sociais junto aos diversos "grupos de marmoteiros" e, descrédito com seus irmãos de corrente. O médium acaba, por muitas vezes, abandonando a religião, sem saber onde errou.

Um bom axé a todos!

Pai Daniel de Oxum




*Imagem meramente ilustrativa, retirada da internet (Google).

domingo, 20 de agosto de 2017

Orixás Xapanã e Sapaktá (Obaluayê/Omulú)





    Dia 17 de Dezembro é o dia de São Lázaro, sincretizado a Xapanã e Sapaktá, 
na grande maioria das tradições do Batuque RS. Já no Candomblé e na Umbanda levam o nome de Obaluayê e Omulú e são associados a São Roque. Para algumas vertentes Xapanã e Sapaktá tratam-se da mesma divindade, sendo Sapaktá uma "passagem/qualidade/caminho" de Xapanã. No qual as divindades foram aglutinadas, no processo de formação dos cultos afro-brasileiros. Outras, são divindades distintas, com natureza similares e suas respectivas ressalvas de culto. Sapaktá também pode ser sincretizado por Nosso Senhor dos Passos (calvário).
   
    Na grande maioria, Xapanã é considerado um Orixá oriundo de Empê (atual Norte-Central da Nigéria), no território dos Nupés ou Tapas, sendo o rei de Empê. Guerreiro, velho, sábio, feiticeiro, temido e impiedoso que, seguido de suas tropas, percorria por todos os cantos do mundo. Ele massacrava a todos que se opunham à sua presença, seus inimigos saíam dos combates mutilados ou morriam de peste. Agindo de forma silenciosa, séria e precisa. O Olugbajé é nome ritualístico dado a seu banquete anual. Tendo como objetivo principal o prolongamento da vida e a promoção da saúde.

    Em grande parte, Sapaktá é um Vodun originário dos povos Jejê-Savalu. Rei da cidade Savalu na África, segundo alguns historiadores, Sapaktá foi o único governante que preferiu o exílio a se render aos conquistadores do Daomé. Sendo Sapaktá o grande Ayinon (rei) dos Jejê-Fom. Considerado filho mais velho de Mawu, ele é o dono do mundo (ayê). Controla a fertilidade da terra e suas transformações, as doenças contagiosas e suas deformidades, a duração da vida, a própria morte. É um Vodun misterioso, impulsivo, vingativo e astuto, tem pequenas similaridades com Orixá Exú/Bará dos Yourubás. O Andeyì é nome ritualístico dado a seu banquete anual. Tendo também, como objetivo principal, o prolongamento da vida e a promoção da saúde. Porém, a ritualística dos Jejê-Fom caracteriza-se por ser muito mais "fechada" e envolta em mistérios do que a dos Yourubás (Olugbajé).

    Muitos adeptos e pesquisadores buscam pela singularidade destas divindades, por serem muito estreitos seus ritos e denominações. Dentre elas, a mais coerente em meu entendimento, é a descrita por Roger Bastilde, no estudo das Religiões Africanas no Brasil. Onde Roger apresenta uma leitura de Omulú, como uma divindade daomeana que pune os que não lhe fomentam culto. Para estes, a divindade mandaria a varíola, despertando o medo e respeito dos iorubanos, no qual passaram a reverenciá-lo como o "Deus das Epidemias" e seu nome tornou-se tabu. Onde se "justificaria" o crédulo dos Yorubás com o Orixá Xapanã/Obaluayê/Omulú. 

    Dentre outras corruptelas, o nome Xapanã, vem de Sànpònná (Fon), idioma do povo Jêje do antigo Daomé, atual Benin, que significa "Dono da Terra". Trazendo a conclusão de que Sapaktá, Obaluayê e Omulú, seriam todos "codinomes" desta divindade, que não poderia ser chamada diretamente por seu verdadeiro nome, em respeito. Surgindo as identidades Xapanã/Sapaktá (Vodun/Jejê/Fom) e Obaluayê/Omulú (Orixá/Yourubá).

    Lembro que em solo africano, dentro dos próprios povos matrizes, existiam distinções em partes de seus ritos, incluindo nomes das divindades. Dificultando ainda mais buscar e formar uma relação estreita entre estas divindades. Em algumas mitologias, ainda, o culto do Sapaktá antecede ao sistema religioso de Oduduá, quando de sua chegada a Ifé, ressaltando o quanto este Vodun transcendeu. 

    Muitas incógnitas cercam estas possíveis origens, mas como Babalorixá, posso constatar, que em meus ritos junto destas divindades se transmitem energias bem distintas, perceptível até mesmo entre os mais novos iniciados nestas divindades.

     Contudo, no Batuque, Xapanã e Sapaktá, com Oyá/Yansã, dividem o axé no processo de desencarne, encaminhando nossa alma (emí) a um dos nove reinos de orún (céu), conforme mitologia dos Yourubás. Bem como, atuam em nossa defesa contra os espíritos obsessores (Aparakás, Kiumbas e Zombeteiros) e suas respectivas mazelas. São de suma importância nos preceitos de limpezas e descarrego. A cabaça (àkerègbè), a lança (òpá òkò), a vassoura (xaxará), a palha-da-costa (Ikó) e o cachimbo (kòkò), são alguns dos principais objetos de força e misticismo destes Orixás. O Maricá e a Figueira são as árvores consagradas a estes Orixás, bem como, o cachorro, a mosca e a formiga são seus animais representativos. Seu dia da semana é quarta-feira Xapanã e a segunda-feira para Sapaktá, sua cor é o roxo (Xapanã) e, vermelho e preto (Sapaktá). Não confundir com Lilás, que pertence a Nanã. Suas oferendas e sacrifícios, são enterrados no chão, no intuito de desfazer as mazelas, abençoando a terra/solo do terreiro ou casa.

    Na doença, Xapanã/Sapaktá, nos ensina através do sofrimento, o verdadeiro valor da vida, da compaixão, fazendo entender que dinheiro não é tudo, que na doença somos todos iguais, nos aproximando da fé.

    Vale lembrar que a "vassoura" foi concebida na tradição do Batuque, como "ferramenta de assentamento" e na forma de "objeto místico de descarrego" (conhecida popularmente como "vassoura de Xapanã"), devido a interpretação do uso do xaxará. Que vem a ser uma espécie de bastão que o Orixá traz nas mãos. Ele é feito de vários feixes de palha, enfeitado com búzios, contas e anéis de couro pintado de preto ou vermelho. Este instrumento foi interpretado como uma vassoura que varre o mundo dos vivos, que varre as epidemias, as mazelas. O seu interior é oco e o Babalorixá/Yalorixá ao construir o xaxará introduz em seu interior o axé destas divindades. As varetas que compõem o xaxará seriam referência à humanidade, aos indivíduos que estão sob o domínio, comando e proteção de Xapanã e Sapaktá. A palavra xaxará é composta do elemento "xaxá" que significa "pintas de varíola" e da sílaba "ará" que quer dizer "esfregar", "tirar", ou seja, "instrumento que varre/limpa a pestes".

    Em um de seus itans (lendas) que Xapanã/Sapaktá seria filho de Nanã, que o abandonou nas areias, dentro de um cesto/balaio, ainda bebê. Em decorrência de suas chagas incuráveis, espalhadas por todo seu corpo, por mais belo que o menino fosse, Nanã não suportou ver seu filho sofrer. Yemanjá, passeando nas areias junto da praia, o resgatou, encantou-se pelo bebê e lhe batizou de Xapanã, lhe livrando da morte, o criando como seu próprio filho. E do amor e leite materno recebido de Yemanjá, Xapanã teria curado a si mesmo, se tornando um respeitado, temido e belo homem. No qual todos os temiam, não ousando chamá-lo por seu verdadeiro nome, "Xapanã", e somente por Obaluayê (Rei da Terra) ou Omulú (Filho do Rei), tamanha grandeza deste Orixá. Por este mesmo itan (lenda), vem a passagem onde Xapanã veste e cobre-se de palhas, para esconder suas chagas, mesmo após curado. E Oyá/Yansã, muito curiosa, escondeu-se no mato, esperou Xapanã se aproximar e, com o poder de seus ventos, fez erguer suas palhas, deixando o rosto de Xapanã todo descoberto. Deste encontro surge a união destes dois Orixás, que se apaixonam e compartilham suas forças místicas.


Abaô Xapanã, Abaô Sapaktá - Atotô, ajuberô!



Axé, Pai Daniel de Oxum.



*imagens meramente ilustrativas, retiradas da internet (Google).

domingo, 21 de maio de 2017

Visita Vereador de Canoas/RS



Dia 10/05/2017 recebi no Ylê de Oxum, com muito carinho, a visita do irmão Pai Paulinho de Odé. Religioso sério, ser humano de extrema humildade, aos longos dos anos vem erguendo a nossa bandeira de matriz africana em prol de nossos direitos e deveres.

Debatemos diversos assuntos religiosos e políticos, ressaltando a intolerância religiosa, a desunião entre os povos de terreiro, bem como, a questão da sacralização. 

Agora engajado com uma proposta ainda maior para 2018, um representante de axé, que veio unir forças com nosso Ylê. Lhe desejo irmão toda sorte e conquista nesta nova jornada. Que Mãe Oxum e Pai Odé lhe abençoem. 

União faz a força!

Axé!

Pai Daniel de Oxum 

terça-feira, 18 de abril de 2017

Quaresma - "Romper da Aleluia"

No culto afro, assim como no católico, a quaresma tem suma importância. Neste período as divindades se recolhem junto á Olorum (Deus) em respeito a peregrinação de Jesus Cristo, representado pelo orixá Oxalá. Os orixás prestam conta de nossos atos durante o ano que passou e clamam misericórdia sobre os erros e pecados da vida terrena, buscando nossa evolução. 

Espíritos e energias adversas circulam até a sexta-feira santa, não se fazendo sensato muita exposição e exageros, mantendo a integridade de seu campo energético e ações.


No sábado de aleluia pontualmente as 10h da manhã servimos as frentes de todas as divindades, doces, frutas e flores, recebendo os mesmos após seu período de resguardo, a quaresma. Momento de plena magnitude dentro do culto afro, chamado "romper da aleluia", efetuamos uma roda de santo, denominada "Xirê", dançando, saudando e recebendo os Orixás.  



domingo, 19 de fevereiro de 2017

Religião Afro - "Falsos Profetas"



     Hoje quero tratar de um assunto bem delicado, porém necessário. Seguidamente atendo à pessoas que tiveram a infelicidade de serem assistidos por supostos falsos sacerdotes. Supostos Pais/Mães de Santo sem nenhuma referencia de matriz africana pautada. Religiosos sem nenhum preparo, totalmente perdidos por não deterem uma raiz que tenham lhes passado os devidos ensinamentos, segredos e preceitos de nosso culto. 

     Falsos sacerdotes que se misturam dentre os diversos cultos religiosos, não tendo uma identidade definida própria; Cabinda, Oyó, Nagô, Jejê, Ijexá, Grefe, dentre outras. Jogam búzios, aplicam ebós, iniciam iyawôs, se incorporam, enchem a cara de cachaça e falam mentiras em nome das entidades, em fim, dão andamento ao culto, sem ao menos estarem com suas obrigações em dia, sem discernimento algum. Em consequência, não se obtem nenhum resultado aos envolvidos, as prejudicam espiritualmente e trazem consequências graves a vida das pessoas. E são estes, que por fim, geram total descrença aos cultos afros, denegrindo a imagem.

   Trago a religião africana em minha família e no sangue, pois sigo o culto através de meus ancestrais. E mesmo assim, com todos estes anos, meus Orixás ainda me acrescentam aprendizados. Religião, seja qual for, não é "brincadeira", todo sacerdote de fundamento deve zelar e manter pelos seus cultos, não deixando assim, denegrir a imagem, através de religiosos despreparados e "falsos profetas". 


Um bom axé!


Pai Daniel de Oxum